Gente rica, ou francesa, ou que entende muito de moda, é apaixonada por magreza. Eu não estou nada magra para eles ou para brasileiros da elite. Agora, gente mais simples vai me achar magra, é normal, gente, desde que a história é história”. A frase foi dita por Maya Massafera, em fevereiro de 2025, e gerou polêmica nas redes sociais, especialmente devido à aparência de magreza extrema exibida pela influenciadora na época. Naquele momento, o uso de canetas para diabetes tipo 2 como estratégia de emagrecimento também ganhava força.
O que, até pouco tempo, era alvo de críticas e debates sobre saúde mental, em um momento em que ganhavam força discursos de valorização da diversidade dos corpos e de questionamento de padrões estéticos inalcançáveis, hoje parece ter ficado no passado. A exaltação da magreza extrema voltou aos holofotes sob uma nova e perigosa roupagem: a de sinônimo de saúde.
E, diante desse fenômeno tão novo com a emergência das canetinhas, fica evidenciado que não importa se você faz o tratamento corretamente, com acompanhamento médico ou não, nem se os medicamentos análogos ao GLP-1 são regulamentados ou falsificados. O que importa é estar magro. O uso desse tipo de produto, por exemplo, superou em 2025 a importação de celulares, salmão e até de azeite de oliva, crescendo 88% se comparado a 2024, segundo o Ministério do Desenvolvimento (MDIC).
Mas tudo isso é a troco de quê? Embora muitos utilizem o medicamento por necessidade clínica, outros procuram algo mais: status, porque a magreza está associada ao imaginário de riqueza e ascensão social.

Magreza, status e construção social do corpo
A nutricionista, professora e doutora Fernanda Scagliusi, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Alimentação e Corporalidades (GPAC) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, aponta que o padrão é, em geral, aquele associado às classes mais altas e, por isso, acaba se distanciando das demais camadas da população.
Logo, depois do movimento body positive ser difundido e bem aceito na sociedade, a magreza virou novamente um símbolo de status. Pode parecer contraditório, mas há explicação. “Quando um determinado padrão já está assimilado por todo mundo, ele não cumpre mais esse papel de diferenciar, normalmente ele muda a definição do que é bonito”, diz.
Esse fenômeno, como explica a psicóloga clínica e especialista em transtornos alimentares Vanessa Tomasini, é sustentado por uma estrutura social em que racismo e gordofobia caminham lado a lado. Isso faz com que corpos diversos e maiores sejam frequentemente associados à feiura, ao desleixo ou à preguiça.
A gente faz uma associação muito direta entre magreza, felicidade, disciplina, liberdade, status social, maior acesso a afeto, a relacionamentos”, afirma. Afinal, quem nunca escutou algo como: ‘Gorda assim, você não vai encontrar ninguém’, ou então, ‘Você é tão bonita, porque não emagrece?’.
Tudo isso, segundo Vanessa, vai construindo essa percepção social de que quanto mais próximo do padrão de magreza, mais próxima a pessoa estaria também de uma vida feliz, com afeto, oportunidades e sucesso.

“Passa-se a vender isso para as pessoas, porque a gente sempre precisa lembrar uma coisa: como pode, em mais de 7 bilhões de seres humanos na face da Terra, cada um de nós, com a nossa história, com a nossa genética, pensar que existe um único padrão de beleza que está calcado num corpo alto, magro, branco, de olhos claros, cabelo liso e de preferência loira?”, questiona ao mencionar o padrão eurocêntrico.
A partir da ‘venda’ desse imaginário, cria-se também o desejo de consumo e a busca por ocupar esse lugar. Nesse ponto, o capitalismo tem um papel central, pois é a partir desse modelo socioeconômico que nasce a a venda de uma solução milagrosa para resolver um suposto problema, cita Vanessa.
A psicóloga especialista exemplifica essa questão ao apontar procedimentos estéticos, cirúrgicos, dietas e medicações que ganharam espaço no mercado nos últimos anos, e cita que o termo ‘canetas emagrecedoras’ para o remédio usado para tratar diabetes fomenta cada vez mais esse mercado.
“Se eu posso comprar essa caneta e automaticamente conseguir esse corpo magro, como se o nosso corpo fosse uma massinha de modelar, onde a gente esquece todos os outros itens que compõem o peso corporal”, explica ao mencionar que o peso corporal é composto por 108 variáveis diferentes.
“O que que está no imaginário das pessoas é coma menos, se exercite mais e essa é a chave do sucesso, correto? Mas isso é uma grande mentira que é vendida e as pessoas vão acreditando nisso”, argumenta.
Riscos, efeitos e debate científico
Para além do impacto social e psicológico que esse movimento gera, há também o físico e nutricional. Uma pesquisa inédita realizada por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), vem estudando os riscos causados pelas tais “canetas emagrecedoras” por pessoas sem indicação.

O artigo, publicado em dezembro na revista Obesity, defende que os fatores relacionados a este fenômeno do uso do remédio como ferramenta estética exige uma óptica transdisciplinar, que aborda visões psicológicas, comportamentais e sociopolíticas, além de alertar sobre a falta de evidências sobre eficácia e segurança do uso por pessoas não obesas.
Fernanda, primeira autora deste estudo, esclarece os efeitos colaterias abordados nos ensaios clínicos desses medicamentos são considerados moderados — como náusea, vômito, dor de estômago, constipação, diarreia, mau hálito, dor de cabeça, apatia e cansaço —, mas se eles começam a estruturar o dia a dia do paciente, a mexer no modo como ele vive a vida, tudo fica mais complicado.
“Algumas das participantes diziam para a gente que estavam tão cansadas que não trabalhavam tão bem quanto antes, ou que sabiam que tinham que fazer atividade física, queriam fazer, mas não tinham força para isso. Pessoas que simplesmente não conseguiam comer, passavam o dia inteiro [sem comer]. O único jeito da pessoa não vomitar era se ela só tomasse Coca Zero naquele dia. Eu te pergunto, isso é moderado?”, questiona.
A especialista ainda menciona o artigo The High Price of Miracle Drugs: Marketing vs. Patient Care (Medicamentos GLP-1 para perda de peso: um triunfo do marketing sobre o cuidado ao paciente, da tradução em inglês), que saiu no começo de abril, onde há evidências que a promoção dessas drogas prioriza o lucro e o marketing em detrimento do cuidado real ao paciente.
No ensaio, é apontado o efeito rebote após a interrupção do uso, que é quando os pacientes voltavam a ganhar peso rápido e quase total. Isso levaria os fabricantes a sugerirem o uso vitalício, apesar da falta de dados sobre a segurança dessa abordagem.
“O problema é que não deu tempo e a gente não faz a menor ideia do que acontece com o corpo de uma pessoa quando ela toma um medicamento desse por 30, 40, 50, 60 anos. Então, o que a gente está fazendo [como sociedade] é um experimento a céu aberto, é um experimento em vida real. E existe aí uma possibilidade das pessoas pagarem o preço”, finaliza.